quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Clássicos da Literatura | O Apelo da Selva, Jack London

Capa do livro O Apelo da Selva
 

Metade São Bernardo, metade Collie, Buck é afastado da sua vida confortável como animal de estimação na Califórnia e vendido a comerciantes de cães. Depressa se vê a bordo de um navio, a caminho do Norte do Canadá, onde, após inúmeros maus tratos, acaba por ser salvo por John Thornton. Em dívida para com o seu novo dono, Buck permanece ao lado de Thornton, no entanto, Buck não consegue resistir ao apelo da Natureza.


Depois de muito tempo sem atualizar a rubrica Clássicos da Literatura no blog eis que tenho a oportunidade de ler dois grandes clássicos da literatura de seguida. Assim depois de publicar a minha opinião sobre o livro A Quinta dos Animais do inconfundível George Orwell, surge agora um post sobre outro grande clássico da literatura mundial, curiosamente também protagonizado por um animal, trata-se (como já deu para perceber acima) de O Apelo da Selva de Jack London.

Buck é um cão de grande porte que nasceu na Quinta californiana do juiz Miller, lá ele viveu, durante os seus primeiros quatro anos de vida, uma vida pacata e despreocupada, isto até ao dia em que um empregado da quinta, cheio de dívidas de jogo, o vende a traficantes que o enviam para o Norte do Canadá. Estávamos em plena corrida ao ouro no norte gelado do Canadá, onde surgiam histórias, mais ou menos fantasiosas, sobre grandes minas de ouro, que prometiam riquezas inimagináveis. Muitos aventuraram-se na corrida ao ouro, arriscando as suas vidas em lugares remotos e gelados, alguns foram mal sucedidos, outros trouxeram fortunas incalculáveis, muitos outros nunca mais regressaram…

Os cães de grande porte sofreram muita procura nessa altura, pois só eles poderiam puxar os trenós carregados de mantimentos pelos milhares de quilómetros de montanhas cobertas de gelo do Norte do Canadá. Buck com os seus 63 kg correspondia ao perfil. Durante a sua jornada ele sofreu, lutou, persistiu, continuou a lutar, entrou em comunhão com a natureza e com o seu lado selvagem. Sofreu uma espécie de regressão ao tempo primitivo, até estar em comunhão com o seu ancestral selvagem e fez o percurso inverso em relação a este. Enquanto um foi lentamente domesticado, o outro foi lentamente se tornando cada vez mais selvagem.

Citação livro O Apelo da Selva


Jonh Thornton foi o último elo de Buck com o seu lado domesticado, a sua  última ligação com o Homem. Sem Jonh Thorton, Buck estava mais do que preparado para aceitar completamente o seu lado selvagem. Talvez esta personagem tenha sido criada por Jack London como o último resquício de bondade por parte da Humanidade. O símbolo de que ainda pode haver esperança em relação ao ser humano, mas isto pode ser apenas a minha singela interpretação, porque afinal Jack London não era uma pessoa conhecida pela sua bondade, mas quero acreditar nisso.

Um livro duro com cenas fortes de maus tratos aos animais, mas que na altura em que foi lançado até que nem deve ter parecido assim tão duro, O Apelo da Selva tem uma linguagem poética e simples ao mesmo tempo. É um livro que nos conduz numa viagem pelo selvagem, pelo belo e perigoso, tal como Buck, o protagonista que praticamente carrega todo o livro nas costas.

Jack London
Tem-se escrito bastante, e quase sempre exacerbando defeitos sobre Jack London, nome literário de John Grifith Chaney. Nasceu em São Francisco, na Califórnia, a 12 de janeiro de 1876, filho de Flora Wellman, uma professora que acreditava estar possuída por um chefe índio, e que vivia com o astrólogo William Chaney. Quando ele soube que Flora estava grávida, negou ser o pai da criança, conta-se que lhe terá pedido para abortar e que ela atirou sobre si própria num ato de desespero. Esta história podia pertencer a um dos romances de London. A solidão desesperada que leva à violência, ao ato extremo. Mas Flora ficou apenas ligeiramente ferida, a criança nasceu e ela entregou-a a uma enfermeira, ex-escrava, Daphne Virginia Prentiss, que se tornaria uma figura central na vida de Jack London. Foi ela quem lhe falou da identidade do pai. Aos 22 anos, Jack escreveu-lhe uma carta e recebeu outra em resposta: ele não era seu pai, a relação com Flora fora celibatária. Pedia desculpas, mas não tinha nenhum filho.

A relação com as suas origens e com o seu nome estava inquinada. Era um ilegítimo, criado como o mais novo de três irmãos. Os outros filhos de Daphne e do seu marido, Alonzo, eram alguns anos mais velhos e adotaram-no criando à sua volta um ambiente emocionalmente protegido, com as dificuldades inerentes à classe média baixa de São Francisco numa época politicamente conturbada, marcada pela corrupção, por protestos, pela luta de classes. De um lado o capitalismo e os seus valores, do outro o socialismo que os condenava. John, que ainda não tinha mudado o seu nome, cresceu a assistir a fortes desigualdades sociais quando era construído, num clima de extrema rudeza, o caminho de ferro da Califórnia. Ser testemunha disso fundou-o enquanto homem e escritor, alguém dividido entre a crítica ao capitalismo e a ambição pessoal. Começou a ficcionar a partir daquela realidade dura, solidificando uma personalidade atraída pelo desafio e pela aventura, característica que levaria para a sua literatura.

Mas, antes, foi pescador, andou a montar trilhos, trabalhou numa fábrica, foi vagabundo e preso por vadiagem, navegou numa escuna japonesa na caça às focas, andou em marchas de protesto ao lado dos desempregados e rumou ao noroeste do Canadá, até Kondlike, naquela que ficou conhecida como a segunda grande corrida ao ouro americana no século XIX, uma experiência que o marcaria para sempre, física e intelectualmente.

Perseguia o dinheiro e diz-se que queria sobretudo saber como ganhá-lo com pouco esforço. Diz-se também que começou a escrever depois de ter lido Moby Dick, de Herman Melville. O fascínio pelo livro e a perceção de que era capaz de ficcionar foram reveladores. Talvez estivesse ali a tal vida longe do trabalho duro, braçal. Escrevia contos que tentava vender ao melhor preço a quem os publicasse e com pouco mais de 20 anos, escreveu algumas obras que o notabilizaram. Caso de O Apelo da Selva, que finalmente lhe deu acesso à profissão que quis ter. Foi o romance que lhe abriu as portas para se tornar, com 30 e poucos anos, num dos escritores de maior êxito nos Estados Unidos.

Financeiramente, não foi um bom negócio para ele, mas permitiu-lhe vender todos os que se seguiram em que London revelava um estilo muito próprio, o homem sozinho numa violenta batalha com a natureza da qual quase sempre saía derrotado.

Era um escritor. Contou como foi até lá chegar em Martin Eden, uma autobiografia ficcionada sobre a luta de um homem pelo reconhecimento da sua escrita. Já estava casado e divorciado de Elizabeth Maddern, e casado pela segunda vez, com Charmian Kittredge. A sua relação com as mulheres foi tão conflituosa como com a vida em geral. Entre a paixão e a insatisfação. Já perto do fim da vida, instalou-se numa fazenda na Califórnia, entre a escrita, o álcool e problemas respiratórios que teve desde a aventura em Kondlike. Especula-se também acerca do que o matou. Houve quem falasse de suicídio. Morreu aos 40 anos, com 23 romances publicados, várias coleções de contos, textos autobiográficos, três peças de teatro, livros de poesia e de ensaio. Talvez tivesse sido esta imensa obra a esconder um homem que parecia não ter qualidades para tanto.

Fonte: Revista Visão

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6 comentários:

  1. Nossa, mas livro com animal é sempre pra fazer a gente chorar, não é mesmo?
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. É verdade Luiza, dá muita pena ver todo o sofrimento por que passa o Buck ao longo do livro.
      Beijo

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  2. Oi, Sonia como vai? Livros como este deveriam ser lidos por todos, muito embora nem todos gostam de animais no meio das estórias literárias. Adorei a resenha. Beijo!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Oi Luciano :)
      Este livro devia ser de leitura obrigatória! Eu adoro animais no meio de estórias literárias, mas compreendo quem não goste.
      Obrigada.
      Beijo

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  3. Eu não conhecia esse livro, mas acho que é o tipo de livro que passaria batido por mim. Depois da resenha achei até interessante. Vou anotar para quem sabe um dia ler.

    https://www.biigthais.com/

    Beijoos ;*

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    1. Há muitos livros desse tipo que nos passam completamente ao lado, mas que no final são muito bons. Este é um desses!
      Beijos

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